Do caipira ao agronejo: por que o sertanejo é hoje o gênero mais ouvido do Brasil
Por Vine Show · 27 de setembro de 2026
97 anos de sertanejo no topo: o que a ciência por trás do gênero ensina pra quem compõe hoje
Não é sensação, é dado: segundo levantamento da Pro-Música Brasil sobre o primeiro semestre de 2026, o sertanejo retomou o posto de gênero mais ouvido do Brasil, com "Eu Te Seguro", de Panda, na primeira posição do ranking das 50 músicas mais tocadas do país — tirando o pagode do topo, que vinha dominando levantamentos recentes. Uma reportagem publicada em 23 de setembro foi atrás do "porquê" por trás desse número, e o resultado é um raio-x valioso pra qualquer compositor que queira entender o gênero em que trabalha, e não só surfar nele.
A história, contada por pesquisadores como Ivan Vilela (USP) e Gustavo Alonso (UFPE), começa em 1929, quando Cornélio Pires bancou do próprio bolso a gravação de "Jorginho do Sertão" porque nenhuma gravadora topava lançar música caipira — hoje reconhecido como o primeiro lançamento independente da música brasileira. Dali, o sertanejo passou por pelo menos mais quatro grandes reinvenções: o estrondo de Tonico & Tinoco nos anos 1940-50, que teria vendido cerca de 150 milhões de discos; a fusão com a Jovem Guarda feita por Léo Canhoto & Robertinho nos anos 1960; o sertanejo romântico dos anos 1980, empurrado pela indústria fonográfica com nomes como Chitãozinho & Xororó e Rick & Renner; e o salto para o sertanejo universitário nos anos 2000, que puxou os desdobramentos mais recentes — o feminejo, com Marília Mendonça à frente, e o agronejo de agora, que mistura batida eletrônica e traços de funk com a base sertaneja.
Tem um ponto levantado pelo pesquisador Gustavo Alonso que todo empresário e produtor sertanejo deveria anotar: o sertanejo de hoje "pertence às cidades pequenas e médias" — exatamente onde está concentrado o crescimento populacional do Brasil desde que as grandes metrópoles pararam de crescer, nos anos 1990. Ou seja, o gênero não domina por acaso ou só por causa de investimento de gravadora: ele domina porque fala com onde o Brasil está de fato crescendo demograficamente. É um dado de mercado, não só cultural.
A outra explicação, essa mais direta pra quem compõe, é o que a reportagem chama de "antropofagia cultural" do sertanejo: a capacidade histórica do gênero de devorar guarânia, ranchera, brega, pop, funk e reggaeton e transformar tudo isso em música sertaneja sem perder identidade. É exatamente isso que está acontecendo agora com o agronejo — a nova fase incorpora batida eletrônica e cadência de funk sem deixar de soar sertanejo. Quem entende esse padrão histórico entende que resistir à mistura nunca foi a fórmula de sucesso do gênero; abraçar a mistura, sim.
Por fim, fica a permanência da "música-crônica": o sertanejo, em todas as suas fases, sempre foi sobre contar uma história — do trabalhador rural nos anos 1930 à saudade do migrante nos anos 1960, do romance dos anos 1980-90 aos relacionamentos passageiros do agronejo hoje. Muda o tema, muda o beat, mas a espinha dorsal de "contar uma história em três minutos" nunca sai de moda. Pra quem compõe sertanejo em 2026, essa reportagem serve quase como manual: o gênero recompensa quem consegue narrar bem, quem entende o público do interior do Brasil e quem não tem medo de misturar sonoridade nova na base tradicional.
Faça parte da Comunidade Hitmakers
A comunidade da música no Brasil. Gratuita, para compositores e artistas.
Baixar o app grátis