Fundos de investimento agora compram royalties de dupla sertaneja — e isso é maior do que parece
Por Vine Show · 28 de outubro de 2026
Enquanto muito compositor ainda trata o próprio catálogo como "só o que eu fiz no passado", o mercado financeiro já decidiu outra coisa: catálogo de música é ativo. E tem gente estruturando produto financeiro em cima disso, com nome de dupla sertaneja no meio.
A Hurst Capital — que se apresenta como a maior plataforma de ativos alternativos da América Latina nesse segmento — lançou, através da sua originadora MUV Capital, uma operação de securitização de royalties musicais envolvendo dois catálogos: o de Fernando Pires, compositor e integrante do Só Pra Contrariar (projeto de pagode dos anos 90 com Alexandre Pires nos vocais, dono de hits como "Domingo", "Minha Fantasia" e "Aquela Mulher"), e o de Luan Rafael, da dupla sertaneja Theo & Luan, que também compõe faixas gravadas por Gustavo Mioto e por Zé Neto & Cristiano.
Na prática, o modelo funciona assim: as receitas futuras que essas músicas vão gerar com execução pública e direitos fonomecânicos são transformadas numa série de Certificados de Recebíveis (CRs) — um papel que o investidor compra esperando retorno. Nessa operação específica, o prazo é de 36 meses, o aporte mínimo é de R$ 10 mil e a rentabilidade projetada fica em 17,26% ao ano no cenário-base — vale reforçar: é projeção, não garantia, porque depende de quanto essas músicas de fato vão continuar sendo executadas e gerando receita.
Segundo a Hurst e a MUV, a aposta de fundo é que um catálogo relevante gera fluxo de caixa relativamente previsível: rádio, shows, plataformas de streaming, locais que pagam Ecad — tudo isso pinga receita mês a mês, trimestre a trimestre, sem depender diretamente do artista estar em turnê ou lançando algo novo. Não é o álbum de 1997 do Só Pra Contrariar que precisa vender de novo — ele já vendeu mais de 3 milhões de cópias e é apontado, pela própria operação, como um dos mais vendidos da história da música brasileira. É o catálogo continuando a trabalhar sozinho, décadas depois.
Pra quem é compositor dentro do universo sertanejo, essa notícia tem um recado direto: seu catálogo pode valer dinheiro hoje, não só "um dia, quando eu for famoso". Se um fundo de investimento está disposto a comprar um pedaço do seu fluxo futuro de royalties pagando adiantado, é porque ele olhou pra esse catálogo e viu ativo — não teve que inventar nada, só fez a conta.
É o mesmo raciocínio que a gente defende no "Do Nada ao Tudo": compositor profissional pensa o catálogo como negócio, administra os registros direito, sabe o que tem direito a receber e entende que aquela música gravada há cinco anos pode estar, nesse exato momento, sustentando uma operação financeira de outra pessoa — ou podendo sustentar a vida dele também, se ele souber jogar esse jogo.
Fonte: Monitor Mercantil.
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